:: Itinga, O vale da fome (Documental)

11 de novembro de 2010 por Ricardo Bastos

Cheguei logo cedo, acordei com parada do ônibus. Itinga logo ali. Era só atravessar o Rio Jequitinhonha e estaria lá. Pera aí! Aqui não é o Vale da Fome? Então me explica o tamanho desse rio, moço! É o seguinte… Chove há 10 dias e o rio encheu. Ah! E por que o nome de Vale da Fome? É porque o povo é miserável e não tem o que comer! Mas como? Olha o tanto de água!! Pois é. Tudo aqui tem dono e não somos permitidos a usar propriamente a terra.

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Tomei um banho e dormi duas horas. Levantei aceso e preparei o equipamento. Ao lado da pousada existe uma organização em prol do desenvolvimento da região. Entrei e logo conheci Val, muito humilde e prestativa. Disse a ela o porque estaria ali. A primeira pergunta: “você veio por causa do Lula?” Ele irá chegar na cidade no próximo sábado e a festa vai ser completa. O Lula esteve aqui na campanha e ele gosta muito daqui.

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Bom, a Val se propôs para irmos até uma comunidade super carente perto da cidade. Voltei ao quarto, peguei o equipamento e fomos nós. Andamos 2 km e logo avistei o povoado. Super pobre, logo apareceu uma quantidade enorme de crianças. O povoado é formado por 9 famílias de baixíssima renda. De cara a meninada ficou ouriçada com a câmera. Com a presença da Val, as coisas foram mais fáceis.

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Consegui fotografar todos, fiz uma produção jornalística. Eles encantaram com toda aquela movimentação. Tirei três filmes e logo percebi que a chuva não demoraria. Despedi de todos e deixei claro que voltava depois do almoço.

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Fiquei meio sem jeito, pois aquela gente não tinha o que comer no almoço e eu iría almoçar. Pois bem. Voltei mais tarde e fiquei a tarde toda buscando as imagens que ali aconteceriam.  Estou fazendo um trabalho onde a imagem sugere informações.

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Procuro sempre mostrar o lógico agregado aos valores materiais. Existe um paralelo entre a fome e a informação. Pessoas que não tem o que comer assistem novelas e escutam música da bundinha.

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Ri demais, fiz muita palhaçada para todos. Del, Cida, Leleco, Amanda, D. Maria e um punhado deles. Meu coração ardeu quando fui tomar um café na casa de Leleco. Tinha mais mosca que mantimento. Fiquei chocado com a condição que essa gente vive.

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Do nada essa gente me recebeu, um fotógrafo tirando fotos de um povoado miserável. O que ele pensa que está fazendo? Teria de fazer algo que pagasse aqueles momentos que eles tiveram a boa vontade de posar para as fotos. Poderia dar dinheiro, mas não tinha o dinheiro suficiente para todos. Fui até a Mercearia e montei uma cesta básica. Fiz questão de carregá-la e voltei ao povoado com a surpresa!

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Dei-me conta do quanto era bom ajudar, sem saber de onde venho ou mesmo quem sou! Cinco filmes da comunidade e amanhã irei até “Hermógenes”, uma comunidade ribeirinha de negros!!!!

Vamos ver o que vai dar!

Até amanhã!

Tchau!

Detalhe esquecido!

Choveu “prá caraio”!

Quem disse que nesse vale da fome não chove?

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Vale da fome significa desigualdade social. Tudo na beira do Rio Jequitinhonha tem dono. Eles não plantam nada, não colhem nada e fazem nada.

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Dia nublado, melhor porque o calor já está “arretado”! Combinei com a Del para irmos a uma comunidade de descendentes de escravos que vivem a duas horas de caminha da pousada. Tomei um café doce, arrumei minhas coisas e caí na estrada.

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A jornalista Andréia que conheci na noite passada estava fazendo uma matéria sobre a miséria e as condições que vivem as pessoas do Morro do Borel. Na noite passada, quando conheci Andréia na pousada, contei o que teria visto nessa comunidade sem água, esgoto e nenhuma condição de higiene, essas pessoas vivem da sorte da vida. Nem ao mesmo vaso sanitário existe nas casas. Fazem suas necessidades no mato. Numa miséria total. Vergonha para meus olhos, isso me chocou.

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Cesta básica, salário família, bolsa escola, tudo isso é piada! O que eles precisam é de educação. Os mais velhos não fazem nada, não por falta de emprego e sim por falta de educação. Foram criados dessa maneira.

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Nada vai mudar, temos de preocupar com as crianças. Os meninos barrigudos viviam no meio dos porcos, moscas em todo lugar, miséria total.

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Caminhamos durante duas horas. Hermógenes é uma comunidade de descendentes dos africanos. Vivem no meio do mato. São negros fortes, 20 adultos e 40 crianças de todas as idades. Quatro casas formam a comunidade. Não foi difícil fazer o primeiro contato, logo encontrei Domingos, um negro de meia idade e sorridente.

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Foi o Domingos ver a câmera fotográfica que ele abriu um super sorriso. Vi as coisas ficarem mais fáceis. Conversando com o Sr. Domingos durante alguns minutos ficou claro que estaria ali na captura de imagens sobre a comunidade. Ele se prontificou a ajudar ao máximo.

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Primeiro fomos até à casa de suas tias. Era uma casa muito simples, escura e com um cheiro forte. Suas três irmãs já idosas tinham dificuldades de andar. Sugeri que elas fossem para fora da casa. Fiz algumas fotos e percebi que a luz do sol estava machucando as senhoras. De repente apareceram várias crianças que mostraram interesse pelas fotos. Não perdi tempo. Fiz uma seqüência memorável, elas se atreviam na frente da câmera.

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Contaram-me a história da comunidade, o que faziam para sobreviver diante da tal situação. Cultivavam alguns tipos de raízes e viviam o tempo todo com fome. Não gostavam de socializar com os demais que viviam aos arredores. Assistência médica e social era coisa rara aparecer por ali. Gastei alguns minutos escutando a prosa de todos. Saí convencido que as fotos já teriam sido realizadas.

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Saindo, fiquei sabendo de uma cascata perto dali. Lá fui eu. Caminhei por uma hora e me refresquei naquela água barrenta. Feliz ao ouvir o barulho da cachoeira, voltei para o centro de Itinga. Almocei no restaurante do Tadeu e tive comigo o Del, que não quis aceitar o convite dizendo que naquele restaurante só entrava rico e que as pessoas que ali freqüentavam não gostavam dos miseráveis. Que nada! Disse a ele. Você é meu convidado e ninguém vai falar nada.

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Comecei a preparar a viagem do dia seguinte. Saí e comprei uma boneca para Alice, aquela menina do Morro do Borel. O sol voltou a brilhar e sai para fazer imagens de Itinga. Fiz fotos da cidade e não poderia me esquecer do Rio Jequitinhonha. O sol estava alto e queria registrar a presença do rio.

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Fiquei conhecendo e conversando com Paulo. Brasileiro, batalhador, me contou sua origem e como teria chegado ali. Faz manutenção nos barcos e toma conta deles à noite. Improvisou uma cabana de lona na beira do rio. Contou tudo sobre o rio. Esperei o sol baixar e fiz a última foto do filme.

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